Imunoterapia ribosómica e infecções respiratórias
A imunoterapia ribosómica foi introduzida há cerca de 27 anos, na forma de preparados contendo ribosomas purificados dos 4 agentes patogénicos bacterianos mais frequentes nas infecções respiratórias.
Grande parte das doenças respiratórias agudas são, tanto na criança como no adulto, as correntemente denominadas infecções respiratórias recorrentes (IRR).
As infecções respiratórias recorrentes de predomÃnio Outono-Invernal, constituem um grave problema de saúde a nÃvel mundial tanto em crianças como em adultos e resultam de um desequilÃbrio entre os mecanismos de defesa pulmonares e a pressão microbiológica. A morbilidade tanto em crianças como em adultos pode ser considerável e traduz-se em custos para a comunidade directa e indirectamente substanciais.
Esta patologia pode ser tanto de causa viral como bacteriana, ou sobrevir sobre-infecção bacteriana em infecções virais ou processos inflamatórios alérgicos das vias aéreas.
No caso da patologia de causa bacteriana os tratamentos antibacterianos podem restaurar de momento o equilÃbrio entre o hospedeiro e a carga bacteriana mas não previnem a recorrência de infecções respiratórias.
Por outro lado os cursos repetidos de antibioterapia são ineficazes contra as infecções virais que constituem grande parte desta patologia e podem aumentar as resistências bacterianas e seleccionar estirpes resistentes. 13.14 Em 1971 estudámos em colaboração com o Instituto Bacteriológico Cãmara Pestana'' a bacteriologia das broncopneumopatias crónicas obstructivas. Em 58 casos de asma brônquica com sobreinfecção ou broncopneumopatias crónicas obstructivas em perÃodo de infecção respiratória recorrente, foi feito um estudo bacteriológico de expectoração, tendo-se isolado 26 vezes Haemophylus influenzae, 5 vezes Streptoccocus pneumoniae, 1 vez Streptoccocus pyogenes e em 32 casos Neisseria catharrhalis, à época não considerada patogénica. As resistências bacterianas neste grupo eram ainda desprezÃveis.
É certo que em certas infecções virais, a sobre infecção bacteriana é causa de agravamento e neste caso o uso de antibióticos deve ser ponderado.
Certas condições imunopatológicas ou alterações dos mecanismos de defesa podem ser factores predisponentes para as IRR, nomeadamente imunodeficiências de predomÃnio humoral, alergias respiratórias ou carência de alfa-1-antitripsina.
Segundo a OMS os factores clássicos de risco para infecções respiratórias recorrentes nas crianças são a má-nutrição (particularmente em paÃses em vias de desenvolvimento ou em vias de regressão), o baixo peso à nascença, ausência de amamentação ao peito, a poluição atmosférica, as baixas condições sócio-económicas, as imunodeficiências, sobretudo a carência de IgA e a falta das vacinações programadas. E assim possÃvel definir subgrupos de doentes de risco. Foi também recentemente demonstrada a importância da lectina de ligação a microssomas, superfÃcies microbianas e a opsono-fagocitose.
Entre as imunodeficiências de predomÃnio humoral a mais frequente é a carência de IgA que apresenta uma prevalência não desprezÃvel, cerca de 1/800 na Europa ocidental, mas outras doenças deste grupo, como as carências das subclasses de IgG nomeadamente a IgG2 e IgG3 e a imunodeficiência comum variável são também situações predisponentes para as IRR.
Na alergia respiratória a inflamação local persistente ou recorrente cria condições favoráveis à s infecções respiratórias, que podem sobrevir tanto ao nÃvel naso-sinusal como brônquico, levando à intervenção de neutrófilos e libertação de proteases, normalmente bloqueadas por inibidores orgânicos.
A alfa-1-antitripsina é o mais importante inibidor das proteases a nÃvel pulmonar e a sua estrutura é condicionada geneticamente. O genotipo normal é denominado MM e as duas variantes mais importantes em patologia são a mutação Z predominante na Europa do Norte, e a mutação S mais frequente na Europa do Sul e Sudoeste, incluindo a PenÃnsula Ibérica. A mutação Z condiciona uma baixa quantitativa e também funcional muito importante da actividade normal protectora levando à destruição da estrutura dos pulmões. A mutação S condiciona uma mutação intermédia.
Assim, as formas mais graves são em geral mas não sempre, observadas em homozigotos ZZ, as formas intermédias em heterozigotos ZS, homozigotos SS ou heterozigotos MZ e as mais leves em heterozigotos MS, na dependência todavia de factores exteriores e exposição ao tabaco.
A deficiência de alfa-1-antitripsina não é uma situação rara em Portugal podendo a incidência dos genotipos S aproximar-se dos 20%, facilitando tanto o aparecimento de Doença Pulmonar Obstrutiva Crónica (DPOC) como, menos frequentemente, de asma brônquica (Palma-Carlos e Palma-Carlos, 1970, 2007).