Imunoestimulantes
Em todas as situações anteriormente referidas a prevenção das infecções respiratórias recorrentes deve ser considerada como alternativa potencialmente útil. Esta prevenção pode ser tentada com imuno-estimulantes. Os imuno-estimulantes actualmente disponíveis podem agrupar-se em:
* Imunoestimulantes de origem microbiana;
* Produtos sintéticos:
* Imunoestimulantes de origem vegetal;
Os imunoestimulantes de origem microbiana são os mais usualmente utilizados há mais de 40 anos. Os produtos de origem microbiana podem ser micróbios inteiros ou modificados, lisados bacterianos ou fracções bacterianas.
Têm sido em clínica muito utilizados como terapêuticas preventivas das infecções respiratórias, mais raramente em infecções de outros órgãos ou sistemas, nomeadamente infecções não respiratórias e ainda em tentativas de melhorar a resposta imunitária em algumas imunodeficiências de predomínio humoral. Estes imunoestimulantes têm a capacidade de estimular uma resposta imune, específica e não específica, actuando sobre as células polimorfonucleares e sobre os macrófagos células Natural Killer (NK) e linfócitos T.
A alta prevalência de infecções respiratórias, o seu custo sócio-económico e o problema das crescentes resistências bacterianas justificam uma óptica preventiva.
Os imunoestimulantes bacterianos são uma classe de imunomoduladores desenvolvidos desde os anos 60 e introduzidos gradualmente nas farmacopeias europeias desde 1970. Diversos tipos de imunoestimulantes de origem bacteriana têm sido utilizados nos últimos anos: podem ser usados bacterianos, proteoglicanos membranários ou ribosomas adjuvados por proteoglicanos. Estão também disponíveis vacinas bacterianas de fórmula variável, aplicáveis por via sublingual, injectável ou em aerosol nasal ou nasofaríngeo, dependentes de prescrição do médico especialista em ImunoAlergologia (Laboratórios Leti e Q-alergia).
A utilização dos imunoestimulantes de origem bacteriana tem sido muito larga. Mais de 8 milhões de doentes são tratados por ano e cerca de 150 milhões de doentes foram já medicados com estes produtos. No entanto na prática clínica os imunoestimulantes não são ainda totalmente aceites e a sua comparticipação pelos diversos serviços de saúde nacionais é controversa e variável.
Uma larga massa de publicações científicas de carácter mais básico ou mais clínico tem sido dedicada nos últimos 30 anos aos imuno-estimulantes bacterianos.
Imunoestimulantes ribosómicos Depois de estudos iniciais com ribosomas de Youmans o grupo francês de investigação dos Laboratórios Pierre Fabre, à data ainda em Castres, desenvolveu nos anos 70 do século XX a imunoterapia ribosómica (Dussourd d'Hinterland) em colaboração com o serviço de Imunologia (Prof. J. Clot) da velha e prestigiosa Universidade de Montpellier (onde foi Professor o "nosso" Pedro Hispano, antes de ser eleito papa João XXI).
Na sequência dos trabalhos de Youmans que demonstraram o poder imunogénico dos ribosomas bacterianos, foram utilizadas fracções ribosómicas bacterianas adjuvadas por peptidoglicanos de membrana, como imunoestimulantes, tanto topicamente em aerosol inalado como por via sistémica. Estes preparados têm provavelmente urna acção imunogénica complexa, actuando tanto sobre os macrófagos da árvore respiratória ou sistémicos como sobre os plasmocitos respiratórios, e mesmo do tubo digestivo através dos comprimidos ou da fracção de aerosol que forçosamente é deglutida, como sobre os linfócitos T e B, respiratórios ou não. Esta soma de efeitos deve levar, por um lado, a uma actividade não específica dos macrófagos com melhores ou diferentes processamento e apresentação dos antigénios aos linfócitos T e B, e também com indução não específica do sistema linfocitário, aumento da resposta imunitária e modificação do sistema de cooperação T-B. Por outro lado, haverá uma estimulação específica das células produtoras de anticorpos para fracções bacterianas ribosómicas que correspondem aos germes patogénicos mais frequentes nas infecções respiratórias e por cooperação macrófago — linfócito T — linfócito-Bplasmocito — produção de anticorpos específicos e provavelmente também activação específica do linfócito T com melhoria dos mecanismos de defesa sistémicos e locais perante os germes em causa. Na realidade, a associação de ribosomas bacterianos com peptidoglicanos de membrana tem um efeito imunoestimulante inegável e de utilidade clínica. As indicações deste tipo de preparados são assim de duas ordens, por um lado as infecções respiratórias repetidas ou a prevenção de infecções respiratórias em doentes "frágeis", por outro lado as imunodeficiências congénitas ou a prevenção de infecções em doentes imunodeprimidos.
Os primeiros ensaios clínicos são apresentados pela Clínica de Pneumologia-Alergologia da Universidade de Montpellier em 1978 (Michel, B ousqu et).
Nos anos 80 iniciámos ensaios em Portugal sendo os primeiros resultados apresentados em 1981, tanto em patologia respiratória como em alguns casos de imunodeficiências celulares com infecções fúngicas, na tentativa de conseguir uma imunoestimulação não específica. O Ribomunyl® apresentava-se inicialmente em comprimidos, forma injectável e aerosol com os quais realizámos ensaios controlados, evoluindo posteriormente apenas para as formas orais (comprimidos e saquetas). Em 1981-82 realizámos um ensaio com controlo laboratorial da imunoterapia ribosómica aplicada em forma de aerosol durante 3 meses tendo a sintomatologia e os dados laboratoriais sido registados antes do tratamento, no fim deste e 1 mês depois, durante o Outono-Inverno e na ausência de antibioterapia. A rinorreia era mucopurulenta em 10 casos antes do tratamento, em 3 no fim e em 3 no período de controlo. Sete doentes em 10 cessaram completamente a rinorreia. Isolaram-se bactérias patogéncias 28 vezes (em 10 doentes) antes do ensaio e apenas 6 vezes depois. Verificou-se um aumento significativo de IgG e de IgA no sangue, assim como do número de rosetas EAC (usadas na época para marcar os linfócitos B). Os testes cutâneos positivaram em todos os casos para as bactérias incluídas no Ribomunyl confirmando o efeito imunoestimulante.
Na nossa experiência clínica de mais de 25 anos com a imunoterapia ribosómica os benefícios têm sido, de forma a tê-la mantido regularmente nos casos de infecções respiratórias recorrentes, tanto em processos infecciosos como nos casos de alergia respiratória ou hiperactividade das vias aéreas com infecção associada.
As particulares possibilidades imunoestimulantes dos ribosomas bacterianos tem justificado o seu uso na prevenção de infecções respiratórias recorrentes na tentativa de estimular um sistema imunitário ainda pouco ou incompletamente desenvolvido por maturação tardia da síntese de IgA, falta de IgA secretória, exposição acrescida a agentes infecciosos ou falência das células implicadas na defesa local ou na produção de anticorpos.